quarta-feira, janeiro 18, 2012

O Candidato

Fui catequista na paróquia de Ribeira da Pena durante sessenta anos.
Ensinei a catequese a três gerações, vindas de todas as freguesias em redor.
Com era de uma família de “remediados”, fiquei solteira. Por estes lados só havia gente do campo, gente muito pobre que trabalhava para outrem, e um ou outro lavrador mais abastado, e depois os fidalgos ( os do solar de Santa Marinha, os da Casa da Serra de Cima, os da Casa dos Crespos, os da Casa dos Barroso, e outros por aí espelhados por estas serras), a gente bem os via na missa das onze ao domingo na igreja matriz. Ora, é bom de ver que os pobres não tinham coragem de olhar para mim, casavam lá uns com os outros, os. Os mais riquitos, com alguma coisa de seu, não lhes interessavam uma rapariga sem terras para casar com os filhos, pois casava-se muito para juntar propriedades. Os fidalgos, meu Deus, isso nem pensar! Pois, se eram fidalgos…! Casavam com parentes que vinham de Lisboa ou do Porto, tudo gente da mesma laia. Bem, eu é que não tinha por aqui ninguém da minha laia. Meu pai veio para aqui como professor primário, era de Mondim de Basto. A minha mãe era da terra, mas de rica tinha pouco. Os meus avós tinham uns campos, mas coisa pouca, e depois ela teve que dividir aquilo com uns primos, não ficou nada. Mas não éramos “gente do campo”, não senhora. No tempo em que meu pai era professor , vivíamos benzinho com o ordenado dele. Depois da morte dele, ficámos a modos que numa pobreza envergonhada. A costura da minha Mãe não dava para o sustento. Foi então que o senhor Abade me chamou para dar a catequese, e pagava-me qualquer coisinha, louvado seja, pois nem era dado receber-se nada. Tinha eu dezanove anos. E foi aí que me dediquei ás crianças. Eles, coitadinhos, apegavam-se muito a mim. E os pais?! Se gostavam de mim! Que a D. Elvira( que entretanto ficou entrevada) era muito rude com eles, que os cachopos fugiam a sete pés da catequese, que eu tinha outro jeito para os cativar…Até mos mandavam de Boticas, vejam lá …
Oh, meu Deus, a quantidade de catraios a quem dei a catequese. Foi aos pais, aos filhos e aos netos!
Mas nesses tempos era tudo bem diferente do que é hoje! Se não era! Chegavam-me aqui crianças descalças, esfomeadas, com as caras enfarruscadas de terra, a roupita rota, cheiinhos de frio. A minha mãe (que já lá está), lavava-os com água aquecida no panelão, e consolava-os com pão branco, e eles ficavam regaladinhos, (em casa só conheciam a broa de milho, que as mães faziam bem amarga, para que não comessem muita). Como a maioria nem a terceira classe fazia, ainda lhes ensinava as letras. Os pais precisavam daqueles bracinhos para os ajudar nos campos!
Mas a primeira comunhão era sagrada, tinham que a fazer! A comunhão solene, essa era só para alguns. Exigia roupa apropriada, era um luxo …
Muitos foram-se daqui para fora. A maioria ia para o Porto, para marçano de mercearia. Outros iam para a tropa e depois não voltavam, ficavam-se por outras terras.
Na guerra em África, ficaram-me lá quatro. Quatro dos meus meninos! Com dezanove e vinte anos, na flor da juventude, meus queridos!
Já lá vai tanto tempo! Mas nunca os esqueço á noite nas minhas orações.
Ás vezes, quando vou para a janela á tardinha, vejo passar o filho do Albino da barbearia, que morreu na Guiné, e penso: «Meus Deus, como este é bem mais velho que o pai!»
Mas de todos o mais esperto que conheci foi o Zeca.
O pai, o Quim caseiro da Casa do Outeiro, apareceu-me aqui um dia com o rapaz:
«Oh D. Lurdinhas, veja se o catraio faz a comunhão. Olhe, se ele não aprender como vossemecê quer, arreie-lhe com o pão de marmeleiro. Dê-lhe! dê-lhe, que é o que os cachopos precisam!»
Grande besta, aquele Quim! Em casa dele havia cenas constantes com pancadaria na mulher. Ao outro dia, a desgraçada, cheia de vergonha escondia as negras da cara com o lenço da cabeça. Eu cheguei a ir falar com o D. Ignácio do Outeiro, que intercedesse pela aquela mulher e aquelas crianças, pois vivam dentro dos seus muros.
«Oh D. Lurdinhas, não se apoquente, foi sempre assim naquela casa, já os avós do Quim eram caseiros do meu avô, e aconteciam as mesmas cenas. Sabe, é de lidarem todo o dia só com animais, depois ficam iguais a eles.»
Grande animal é o que tu és, pensei eu com os meus botões. Sempre enfiados na igreja, e não sabiam o que era caridade! Uns trastes! Eles é que precisavam de um pau de marmeleiro, “os” do Outeiro!
Preparei o Zeca para a comunhão. E se aprendia bem, o rapaz! O mestre da escola dizia o mesmo, e que era mesmo uma peninha que aquele moço ficasse só com a terceira classe. Pois…, mas convencer o bruto do Quim para o filho continuar na escola?! Que os outros sete ainda eram muito pequenos, ainda não ajudavam em nada, que não podia cultivar as terras e cuidar de animais, tudo sozinho…Era sempre a resposta dele. Fui falar com o Sr. Abade Joãozinho, para que me ajudasse, que o rapaz merecia uma oportunidade. Enfim, sempre era o Abade da nossa terra, tão respeitado pelas gentes de todo lado, e tanto por fidalgos como por gente dos campos.
O Zeca lá fez a quarta classe.
E voltou para os campos, a carregar seixos de erva ás costas, a levar o gado a pastar, a rachar lenha, a ordenhar as vacas, etc.
Eu não me conformava com aquilo. Aos domingos, depois da missa das sete, que era a missa dos pobres, (a dos ricos e fidalgos era ás onze, eu a minha Mãezinha como éramos “remediadas” tanto íamos a uma com a outra), a rapaziada ficava no adro a jogar á malha. Pois nem isso o patife do Quim permitia. A gente bem lhe pedia, mas que não senhora, direitinho para casa, havia muito que fazer, nem que não fosse cuidar dos irmãos mais novos, para deixar a mãe livre para outras tarefas.
Pois então eu impus-me. Disse ao Quim que precisava muito que o rapaz nos ajudasse, pois a minha Mãe estava doente, e a seguir a missa trazia-o para nossa casa. Tudo mentira! Ele ficava ler uns livrinhos que a gente tinha para aí. Estou a vê-lo, sossegadinho ali no canto da saleta, depois de a gente lhe dar uma caneca de café com leite, agarrado ao Júlio Dinis, ao Guerra Junqueiro, e mais a umas vidas de santos e bíblias que tínhamos herdado de umas primas. Via-se mesmo que o moço gostava das letras, que era “dotadinho” para os estudos!
Pois não larguei o Abade Joãozinho até concretizarmos o nosso projecto. Conseguimos que ele fosse para o orfanato dos rapazes de Vila Real, onde os preparavam até ao quinto ano. Ele lá família tinha, mas o Abade Joãozinho trabalhou bem o caso com os padres de lá.
Eu ia visitá-lo na “carreira” ao domingo. Ele andava muito tristinho, tinha muitas saudades dos irmãos mais novos. Vinha a casa pelo Natal e uns tempos no Verão. O pai quando o apanhava punha-o logo a trabalhar. Mas aguentou os cinco anos, sem nunca lhe ver uma lágrima, e sempre agarradinho aos livros.
Pois não é que o meu Zeca foi fazer o exame ao liceu, e ficou “dispensado das orais” tanto em letras como em ciências!
O liceu de Vila Real nesse tempo só leccionava até ao quinto ano. Os rapazes do orfanato ou iam para o seminário, ou ficavam por ali a trabalhar. A D. Eugénia Sofia, sogra do senhor D. Ignácio, propôs ao senhor Abade pagar-lhe o seminário. Achava a velha que teria assim o Céu garantido! Mas o Zeca sabia bem o que queria, e não queria ir para padre.
Depois de cinco anos longe da Casa do Outeiro, voltou para as lides do campo.
Quando o via ao longe a avançar para a serra com o rebanho, fazia-me dó.
Sempre que podia, vinha bater-nos á porta. Aqui tinha sempre o seu cantinho de leituras. Nunca gostou de ir “ver a bola” para o café, como os outros.
Ele era diferente!
Em meados de Setembro desse ano, apareceu-me muito contente, muito prazenteiro. Com um sorriso de felicidade que não conseguia disfarçar. Parece que andava sobre nuvens. Eu perguntei-lhe porque andava tão satisfeito. Que andava “a falar para” uma moça. Tinha-a conhecido na romaria da Nossa Senhora da Pena. Mas não podia dizer o nome.
Sem saber porquê, fiquei um bocadinho preocupada.
Pois, e era de ficar! A tal “moça”, era uma menina sobrinha dos fidalgos. Era de Lisboa. Franzininha, vinha “a ares” para a aldeia.
O D. Ignácio entrou pela cozinha adentro dos caseiros, e, aos gritos exigiu que o Zeca saísse de casa imediatamente, não o queria mais ver, depois de tamanho descaramento. A “franzininha” já tinha sido recambiada para Lisboa.
A Deolinda veio ter comigo, que eu a ajudasse, chorava como uma Madalena, que não sabia o que havia de fazer, que ter que pôr o filho fora de casa era arrancarem-lhe o coração.
Não foi preciso, o Zeca desapareceu nesse mesmo dia.
Passaram-se oito dias, quinze dias, e o do Zeca ninguém sabia. O senhor Abade usou dos seus conhecimentos para pôr a policia a procurá-lo, até a P.I.D.E o procurou. Mas nada. E o Abade Joãozinho dizia-me,
« Ai, menina Lurdes, se ele foi para Espanha nunca mais o encontramos. Até falei com o governador civil de Vila Real, ele diz que accionou conhecimentos em Lisboa, que está tudo apostes a procurarem o Zeca. Que hei-de mais fazer, falar mais com quem?! O rapaz sumiu-se mesmo. Ai se ele foi para Espanha!»
Eu chorava, e rezava, chorava e rezava. Só tinha calma quando a Deolinda vinha falar comigo.
«Tenha fé, o nosso Zeca está bem. Ele é muito esperto. Sabe desenrascar-se. Vamos rezar, rezar muito para que Nossa Senhora nos atenda. E o Quim que quebre, diabo do homem, e também reze para que o filho apareça».
«Esse malvado, arrenego-o eu! A culpa também é dele, excomungado, só sabia atirar-lhe com o que tinha á mão, nunca se dirigiu ao rapaz sem ser a blasfemar!».
Estou a vê-la, aqui á porta da minha cozinha, ainda a dar de mamar á Deolindinha.
No lugar dos olhos, tinha dois pontos vermelhos…
Passado uns dois meses, uma manhã chega-me o carteiro, muito curioso, que eu tinha carta de Lisboa…
Bendito dia aquele!
Era do nosso Zeca…Que estava bem, trabalhava numa mercearia aos recados, e o patrão deixava-o dormir numa arrecadação. Que era bom para ele, dava-lhe alguma comida que sobrava de sua casa. Que pedisse a bênção á mãe e que ela o desculpasse de ter abalado sem dizer nada. Mas não poderia ter sido de outro modo. Que eu a sossegasse. Que desse saudades aos irmãos. Prometia que um dia havia de voltar.
Depois passou-se muito tempo, não me lembro bem, talvez uns dois anos e nada de cartas do Zeca.
Deu-se o 25 de Abril. Depois começou a haver por aqui muito falatório de quem eram os maus e os bons. E vieram-me dizer, que, no café do Abel, falava-se á mão cheia que o Zeca era comunista, estava do lado dos maus. Pois eu, que gostava pouco de entrar no café, quanto mais á tarde que só tinha homens, pus-me a caminho, cheguei lá e disse para quem quis ouvir:
«Ficai sabendo, que eu não percebo nada de politica, sei lá quem são os comunistas e os bons…Mas dou-vos a minha palavra, onde o Zeca estiver, só pode ser do lado dos bons. Raios vos partam com estes paleios! Ouvistes bem o que eu vos disse?! Então não esqueceis, para eu não tornar a vir aqui outra vez, já não tenho idade para isto!»
Ouviram e calaram!
Por esse Natal, recebi um postal muito lindo, cheio de pozinhos prateados, era o Zeca a dizer que andava a estudar á noite, que bem mais cedo do que se pensasse, havia de aparecer.
E assim foi, depois de cinco anos nos ter deixado naquele aflição, apareceu em Ribeira da Pena.
Apresentou a mulher, uma rapariga jeitosa, que tinha sido colega de Direito. Notava-se que eram cúmplices, entendiam-se com o olhar. Trabalhavam num Ministério, não sei já o quê.
Tinha saído daqui escorraçado, humilhado, só no mundo.
Chegou um homem realizado, feliz, ao lado da companheira.
Ficaram em minha casa. Poucos dias se demoraram. Foi matar saudades da mãe e dos irmãos, pegou nos dois rapazes mais novos e levou-os com ele. Pouco se importou com os gritos do pai.
Bendito seja o meu Zeca, já lá vão uns vinte anos? ou mais?, não sei…
Aqui há tempos, no Centro de Saúde, disseram-me que o Zeca era presidente de um partido. Que vinha tudo no telejornal. Nem liguei á conversa daquelas velhas…

Mas hoje, meu Deus, hoje domingo, dia de eleições, agradeço-Te teres-me dado estas ricas pernas até á idade dos oitenta e três anos, para ir a pé até á Junta de Freguesia, votar no meu Zeca para primeiro- ministro!

sexta-feira, novembro 25, 2011

As Janelas Da Minha Vida

UMA VIDA SEM ASAS


CRONICA UM


“ JANELAS DA MINHA VIDA”



Houve um tempo em que a minha janela dava para um jardim, e ao longe viam-se campos de milho, e mais ao longe uma “bouça” com árvores com árvores imensas e diversas. O jardim era escalado em socalcos, uns com relvados, outros com canteiros de flores delineados com buchos, outros de árvores de fruta com laranjeiras pejadas de laranjas azedas, que originavam a tanto apreciada “marmelade”. E no meio, uma capela.

Havia dias, que grupos de pescadores com suas famílias, chegavam de longe, da Póvoa do Varzim, de Viana do Castelo e de outras praias onde, onde á costa deram, diziam, por milagre, depois de uma noite louca no mar revolto. Traziam muitas garrafas de azeite, para que se acendessem lamparinas todo ano em agradecimento a Nossa Senhora de Monserrate.
Nós, os “meninos” da casa, gostávamos muito destas incursões. E ouvi-los contar á nossa criada, que os conduzia até á capela, aventuras dramáticas. Havia sempre alguém que tinha sobrevivido a um naufrágio. Depois essa gente lá se ia embora, prometendo voltar para o ano seguinte, e distribuindo rebuçados de mentol de um tostão.

No Verão, ás tardes, vinham outros meninos brincar connosco. Eram mandados para o para o nosso oásis. E ás cinco horas, a “nossa” Geca, (a criada que tomava conta de nós), chamava para o lanche, que era papa maizena colorida com gema de ovo. Mas do que gostávamos mesmo, era de comer a broa de milho ainda quente, saída do forno dos caseiros, cuja tampa era fixada com bosta de boi. Havia um cheiro a terra molhada nesses fins de tardes de Verão, enquanto os bois davam á “nora,” e os campos ficavam bordados a regos de água.

Nesse tempo não desconfiava de nada.




Houve um tempo em que a minha janela era muito alta. E não era a “minha” janela. Eram as janelas de um internato de Doroteias
E era proibido aproximar-se das janelas.
E lá dentro era o silêncio. Por vezes cortado por a passagem de uma freira pelo longo corredor, fazendo tilintar o rosário com o crucifixo dependurados ao pescoço.
E depois outra vez o silêncio.
E a missa da manhã, e as aulas, e o refeitório. Tudo em silêncio.
Às duas da tarde, soava o grito de vida das meninas, na meia hora de recreio.
Depois voltava o silêncio, as horas de estudo, o terço e bênção, as orações da noite.
Até ao sepulcral silêncio do dormitório.
Havia meninas que iam a casa de quinze em quinze dias. Mas as que os pais eram de longe, da província, era muito raro irem. E isso magoava-me a alma. Essas, tinham “enchidos” escondidos nas malas, pois era proibido ter comida vinda de casa. Fazíamos incursões á sala de arrumação das malas, para elas matarem saudades da “terra”.
Depois havia castigos para elas e para as cúmplices. Que eram a ausência do recreio.
O total silêncio todo o dia.
Havia ainda, as que os pais estavam em África, a trabalhar muito. Para que elas pudessem andar num colégio tão bom. Para que tivessem uma educação esmerada. Para que pudessem conviver com meninas “finas”.
Essas nunca iam a casa.
No dia em que começávamos as férias de Verão, virávamos os colchões para arejarem, antes de virmos embora. Já de malas feitas, e os pais na portaria á espera.
E elas ficavam. Até nesse dia, elas ficavam.
Tinham sete, oito ou nove anos.
A infância tinha acabado a meio da infância.
No entanto eu ainda era criança, e ainda

Não desconfiava de nada.




Houve um tempo em que a minha janela dava para o jardim da Gulbenkian.
Tinha vinte e cinco anos e uma filha pequena.
Devido á barulheira dos carros que passavam na Avenida de Berna, as janelas estavam sempre fechadas. Mas atravessávamos a rua com o triciclo, e íamos brincar para o jardim.
Éramos felizes as duas, naquela «cajinha pequeninha», como ela dizia.
Um dia recebi um telegrama, do Comando das Forcas Armadas na Guiné.
Dizia: Cumpre-nos o doloroso dever, de informar Vossa Excelência, da morte do capitão miliciano, M…………………………….., comandante da companhia nº ……., sitiada em Encheia, pertencente ao comando de batalhão de Bissorã……,
Aí percebi que os trilhos da vida por vezes descarrilam, e então,

Comecei a desconfiar




Agora, neste tempo, a minha janela dá para a Sé de Lisboa e Largo de Santo António.
Daqui vejo, os turistas a correr aos gritos atrás do ladrões, depois de ficarem sem as mochilas.
Os casamentos de Stº. António, e suas noivas com rendas e tules, e diademas de fantasia.
A procissão de Nossa Senhora da Saúde, com as prostitutas do Martim Moniz a cantar, ladeando o andor.
O S. Jorge a cavalo a entrar na Sé, no dia do Corpo de Deus. A missa campal com o Cardeal todo enchapelado. Depois sai, no seu cavalo branco, acompanhado por um homem vestido com malha de fero. Vão em procissão em direcção da baixa.
Tenho outra janela virada a Sul, que se abre sobre a praça do Campo das Cebolas e suas palmeiras.
Depois delas, o Rio.
A doca do Jardim do Tabaco e a magnificência dos seus iates de visitantes reais.
Mais ao fundo, os enormes cargueiros.
Aos fins de semana, o rio transforma-se num mar de velas brancas em regata.
Não espero coisa alguma. Vivo um dia de cada vez.

Já não desconfio de nada.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

PARADA GAY

Há um aglomerado de gente na Praça Camões. Estão-se juntando manifestantes para a «parada gay». Forma-se uma miscelânea de gente; Travestis extravagantes em fatos de noite de lantejoulas, com baton garrido e pestanas postiças. Homossexuais “cool”, de fato e gravata, com ar “ bem arrumado”. Outros mais expansivos de roupa “fashion”. Lésbicas de saias indianas e sandálias de couro, look “Woodstock”, provocatoriamente trocando carinhos Outras bem mais modestas, de pernas gordas apertadas em jeans deformados e camisas largueironas. Misturam-se com voyeurs que passam no Chiado e se aproximam para ver aquela “fauna”.
Mas a festa começa a ficar mais colorida, quando inesperadamente, surge um grupo de velhas prostitutas do Bairro Alto, ( a mais nova tinha uns cinquenta anos), vistosas, mini saias de ganga, cabelos permanentados, tricolores entre o preto, amarelo e branco. O que queriam, era mesmo gozar com os manifestantes, e batendo nas nádegas e no peito, gritavam para os transeuntes: «Oh filhos, deixai-vos destas modernices, nós ainda estamos boas como o milho, para que servem estes palhaços!?». E vá de levantar as saias e abrirem os decotes das blusas. Os homossexuais eram gozados, mas não hostilmente, agora as lésbicas, ouviam insultos e dos grandes. Estas, indignadas por lhes cortarem a dignidade da manifestação, chamaram a polícia.
A Tekas, de longos cabelos loiros, roupa muito justa, parecendo mais um réplica da Barbie,( neste caso com cinquenta tal anos), do que uma mulher de carne e osso, saía de uma boutique de multi-marcas ali na praça. Fica espantada com toda aquela cena. Feridos nos seus valores morais, indigna-se com o teor da manifestação, e põem-se ao lado das velhas, apoiando os seus protestos galhofeiros.
Mas quando a policia rodeia o grupos das prostitutas e as mete na carrinha, não percebeu que a Tekas era loira de madeixas feitas num bom cabeleireiro, não amarela oxigenada de raiz branca, e que a mala era do Dolce e Gabana e as botas do Gucci e as calças do Armani. Enfiam-na no banco de trás junto com as outras, rumo á esquadra da Praça da Alegria.
Já lá dentro, o grupo do Bairro, sempre na galhofando, «Oh filha, isto prá gente é como comer tremoços», foi-se identificando, até chegar a vez da Tekas.
Um polícia hesitante lê alto: «Maria Teresa Cacona …». Gargalhada geral, o mulherio fica delirante. «A senhora por favor confirme, chama-se Maria Teresa Cacona Rodriguez?».Os policias disfarçavam o riso com esforço enquanto reprimiam as mulheres que gritavam grosserias. A Tekas, de cabeça bem erguida, com ar altivo e digno, diz: « Sim, chamo-ma Maria Teresa Cacona Rodriguez. Sou Cacona do meu pai, de quem tenho muito orgulho, foi um grande empresário na Venezuela, e a minha mãe era finíssima, descendia do rei duma tribo índia». Neste momento as gargalhadas transformaram-se em gritos. Os polícias deixaram de se conter e riam descaradamente. «Vocês não percebem nada do meu estatuto social, são completamente ignorantes! Mas se vissem as revistas saberiam quem era a Tekas. Foi a quinta mais vestida do país na revista “CARAS”. Sou Rodriguez do meu ex marido, que pertencia á nobreza espanhola. E não estou para estar para aqui a ser enxovalhada por esta gentinha! Eu sou uma grande empresária, com lojas de grandes marcas de moda por todo o país. Não sabem mesmo quem estão a falar! Que loucura, só neste terra miserável é que isto pode acontecer a uma senhora! Mas eu vou sair imediatamente daqui». (pega no telemóvel). «Tá, Nunu, estou na policia…não, não houve desastre nenhum, filha, o que houve foi um ataque de estupidez duns policias, eu já te conto..., só te digo que estou aqui enfiada com umas de mulherezinhas da rua, mas isto não fica assim….Sei lá, se calhar porque eu estou arranjada para ir com vocês á estreia do Politeama logo á noite, e sei lá o que estes ignorantes pensaram… se é que pensam! O teu chauffeur que venha buscar-me á esquadra da Praça da Alegria, depressa, por favor, acho que me vai dar um ataque não sei de quê…, de raiva…, Tá minha linda, até já.»
Virando-se para os agentes: « não tenho mais nada a dizer, mas podem crer que isto vos vai sair muito caro». Cruza a perna, e chocalhando as imensas argolas doiradas da mala, tira uma “Hola!”, com baronesa Von Thyssen na capa, e diz: «Vou esperar o meu chauffeur, não me macem».

terça-feira, janeiro 18, 2011

A ALMA DOS REMEDIADOS

CRÒNICA DOIS



“ A AMANTE DE ALFAMA”



A rua das Canastras, travessa estreita ladeada pelo “Arco das Portas do Mar” e pelo «Arco Escuro”, fica junto á Sé. Dali para a frente começa o bairro de Alfama.
Sendo as casas todas pós terramoto, algumas com 200 anos, a câmara vai lentamente fazendo obras de restauro. Há permanentemente contentores de lixo, cheios de bocados de estuque, pedaços de madeira, azulejos etc. então, em frente a casa do sr. Armando que habita o rés do chão do nº1, É já habitual permanecer um contentor para o que der e vier, que está sempre cheio.
A rua, habitada exclusivamente por idosos, há uns anos para cá vai ficando deserta de gente. Uns foram para a “terra” acabar os seus dias, outros morreram, e os filhos nem falar-lhes em viver naquelas casa velhas, querem a sua casinha em Rio de Mouro ou no Barreiro. Tudo isto para regozijo dos proprietários, que deixam os prédios vazios, sonhando com um futuro dourado daquela zona á beira-rio.
O Armando já há uns anos que anda a proclamar para vizinha da janela em frente,
« para Agosto vamos para a aldeia e não voltamos». Mas em Setembro voltam sempre. É todos os anos a mesma coisa.
A mulher, a senhora Elvira, sempre com a sua voz delicodoce, é enjoativa de tanta simpatia e salamaleques.
«Então, minha querida senhora, anda melhorzinha? agora parece-me mais cheiinha, gosto mais de a ver assim. E a netinha? Deve parecer um anjinho!»
«Está tudo bem, obrigado, e vocês?»
« nós estamos mortinhos por ir para a terra. Mas o meu Armando tem sempre uns trabalhinhos pendentes.... agora aqui é só chineses e indianos, (fazendo um gesto que abrangia o bairro da sé, baixa e tudo mais) e isto já não interessa a ninguém. e temos lá uma casinha que é um mimo. Muito gostava que a senhora lá fosse...vamos lá ver...»
E a conversa nunca mais acaba. Quando vou na rua e a vejo á janela, tenho que fugir.
Uma bela manhã de Junho, o sr. Armando proclama da seu “púlpito”
«é para o próximo mês, já avisamos o senhorio, vamos de vez para o nosso sossego, já cá andamos 50 anos a trabalhar no duro, chegou a nossa hora!»
Passados dias, á noitinha, no meio do “meu” telejornal das nove, ouço grande gritaria vinda da rua, corro para a varanda. o sr. Armando no meio da rua num discurso bem alto, « já te disse para não pores mais aqui os pés, deixa-te lá ficar na Rua dos Remédios, “sua puta d, Alfama”, não te venhas meter aqui na mina vida, eu vou para onde eu quiser! mas que grande porra, esta puta só gosta de me moer a cabeça!
E uma velha, com setenta e muitos anos, com o cabelo metade oxigenado, metade branco, uma chinela no pé e outra na mão como arma de arremesso, gritava-lhe,
« cabrão, julgas que ao fim destes anos todos me deixas, cabrão de merda, vai para a tua terra, vai, que eu hei-de pôr-te os cornos até ao último dia da minha vida!»
Depois deste diálogo eloquente, o Sr. Armando pega na mulher e enfia no contentor, empurrando-a para baixo, cobrindo-a de bocados de tapume e cacos de telhas. E ninguém, ninguém mesmo, nem um cão se via na rua. Das janelas viam-se dedos a entreabrir as cortininhas de nylon branco. Haviam olhos á espreita, mas as cabeças não se mostravam. A única espectadora frontal era eu, do cimo da minha varanda num quarto andar. De início até estava entretida a ouvir o diálogo daqueles dois, mas quando a mulher é “enterrada viva”, desato aos gritos,
«socorro, acudam».
O Armando vai para casa com ar tranquilo sacudindo as mãos, e muito calmamente fecha a porta, como tivesse dado por encerrado um assunto pendente há muito tempo.
Bacalhoeiros, em frente á minha varanda das traseiras. Estava a apanhar o fresco da noite em pijama, e disse que não podia fazer nada. Voltei para a varanda donde via o espectáculo. Fiquei Passam-se alguns minutos e começo a ver a cabeça da velha a emergir da lixeira, agora toda cinzenta do lixo e da poeira., ela consegue a muito custo sair cá para fora, e tirando os bocados de estuque da cabeça para poder ver, grita em direcção a casa do Armando,
« cabrão do velho, corno de merda, julgava que me enganava, mas vai para o caixão mais depressa do que vai para terra»
O homem sai de casa, e calmamente, diz,
«se não calas essa boca, eu racho-te ao meio»
A velhota com toda a genica que arranja, ainda responde,
« tu?, “ó frouxo”, nem forças tens para tocar viola!»
Em breves instantes o homem entra em casa e volta a sair, agora com um machado na mão,( eu nunca tinha visto um machado tão grande!, parecia o machado dos anões da Branca de Neve, dos livros ilustrados da minha meninice, onde o machado era imponente comparado com os anões). com um ar determinado, avançando para ela, diz,
« vou-te matar!»
Aí, atravesso a casa a correr, gritando sempre,
«oh Sr. Álvaro, acuda aqui»
O Sr. Álvaro é o presidente da Junta a de freguesia da Sé, e mora na rua dos bacalhoeiros, em frente á minha varanda das traseiras. Estava a apanhar o fresco da noite de tronco nu e calças de pijama, e disse que não podia fazer nada. Voltei para a varanda donde via o espectáculo. Estava rouca de gritar “socorro”. O cão do vizinho do Esq. desatou a ladrar-me na varanda ao lado.
E nunca ninguém apareceu! Só as cortinas de terylene” mexiam…
A velha viu que a “coisa estava feia”, ainda a largar muita poeirada, cambaleando sem as chinelas, vira-lhe as costas, e já calada segue em direcção a Alfama.
Ele desiste do “homicídio” e mete-se em casa.
Minutos depois, quando o episódio parecia dado como acabado, a Sra. Elvira, abre a janela de par em par (até aí não se tinha notado a sua existência, o marido bem podia ter matado a “outra”…). E tal esposa legítima, embora de vernáculo popular, grita para a velha, que se afastava com esforço,
« grande cabra, que me andas a comer o homem há 40 anos, vai morrer para longe, puta do caralho, que este a quem o padre me uniu, há-de morrer meu marido!»
A rua toda ouviu, e sempre invisível, ficou ainda mais silenciosa.

A ALMA DOS REMEDIADOS

CRÓNICA TRÊS

"GEMER EM CRIOULO"

Hoje, no Hospital STª Maria, ao meu lado, na sala de espera, uma mulher gemia em crioulo.

Com a cabeça atada com um lenço colorido, escondendo os estragos da quimioterapia, vestia um pano africano com cores que agrediam a manhã de rigoroso inverno, sem meias, contrastando com fileiras de senhoras que, de calças e botas, sacudiam a chuva das gabardines e casacos compridos.

Hoje, no hospital, ao meu lado, uma mulher gemia em crioulo.

Num doce crioulo ao som do qual eu descobri as mornas no principio dos anos oitenta, na voz do Bana, no «Monte Cara».

Ao seu lado, uma jovem, que tentava que fossem atendidas no gabinete dos cuidados paliativos.
A mulher, torcida de dores, tentava acomodar-se meia estendida em duas cadeiras geminadas, de plástico moldado para assento, duras como pedras, ironicamente verdes alface.
Como se naquele lugar ligado á dor e á morte, algo pudesse inspirar frescura.
A mulher gemia baixinho, e dizia, na sua dor, palavras com um som lindíssimo, musicais, que eu não percebia o significado.
Como a jovem acompanhante demorasse á porta do gabinete médico, toquei-lhe no braço e perguntei-lhe se precisava de alguma coisa. Olhando-me com uns olhos enormes, continuou a gemer num misto de doçura e sofrimento.
A única cumplicidade que eu podia ter para com ela, era olha-la enquanto ela me olhava, e gemia em crioulo.
A jovem chegou, perguntei se era filha, se precisava de alguma coisa.
Que não, muito obrigado, com os mesmos olhos doces cravejados de lágrimas, que “era muito complicado”.
Era o que ela achava conveniente dizer daquele caso de doença extrema:
“Era muito complicado”!

A sogra tinha muitas dores, estava sempre a gemer em casa.
«Quer ir morrer para Cabo Verde. Para casa. Se tivesse vindo para Lisboa logo, quando o tumor apareceu... Assim “era muito complicado”....Mas lá em Cabo Verde não há hospital como aqui, há muito médico, mas é particular, é muito cara operação, vêem sempre a Lisboa, ou França ou Holanda, lá é muito dinheiro....Mas para vir, “eles” têm que dar papeis e demoram muito, demorou muito para ela, agora é muito complicado, médico diz que não pode operar, não pode fazer nada. Ela quer ir embora, tem lá dez filhos, quer ir morrer lá. Está á espera do filho que está na França, o meu marido, que vai levar ela para Cabo Verde, mas só pode vir daqui a um mês. Sei não, é muito complicado, não sei se a morte dela vai esperar...era bom era, que a morte esperasse, para ela ir morrer lá…»

Hoje no hospital, ao meu lado, uma mulher gemia em crioulo.

O crioulo das “coladeras” e do “ funana”ao som dos quais eu tanto dancei na noites da “ Lontra” e mais tarde no “Ritz Club”.
Quando para mim as noites acabavam ás cinco e meia da manhã e seguiam-se pequenos- almoços de “cachupa” em casa da “tia Zézé”, esmerada cozinheira cabo-verdiana que recebia na sua casa, um segundo andar da Conde Barão.
No Verão, aí se juntavam muitos cabo-verdeanos vindos de férias de vários países da Europa.
Riam e bebiam cerveja com “o branco” vindo da Lontra. “O branco jornalista”, como eles chamavam á fauna de intelectuais bêbados que tropeçavam por ali de madrugada.
Era fascinante ouvi-los no seu gesticular elegante, na sua fala melodiosa!

O crioulo em que me delicio ouvindo as mornas de Cesária, nas noites solitárias na minha sala...
O crioulo do Tito Paris, ao som do qual me diverti, ainda há poucos anos, no inesquecível Beleza.
.
Hoje, no hospital, ao meu lado, uma mulher gemia em crioulo.

No mesmo crioulo em que a “minha” Francisca, oriunda da ilha do Sal, me irrompe pela casa ás terças-feiras de manhã, acende a telefonia na rádio África, e exclama num tom tão alegre, quase infantil:
«Então, D. Manuela, agora que está mesmo boazinha de saúde é tem que ir dançar, e não diga que não vai não, agora é que senhora tem que ir…».
E vou, não ás noites de música africana onde parava a “inteligenzia” lisboeta, dos findos anos oitenta e noventa. Mas quando vou buscar a minha neta ao infantário, para ficar comigo á sexta -feira, pelo caminho paro na esplanada da “Brasileira”, e por ali fico a dançar com ela. O ritmo é de funana , toca um simpático grupo e músicos de Santiago, com dois “guitarras” portuguesas á mistura. São os “guents dy rincon”. Procuram a sua oportunidade ali no meio do Chiado.

É o bocadinho mais feliz que tenho hoje na minha vida, aquele fim de tarde de música e dança.

Hoje, no hospital, ao meu lado, uma mulher gemia em crioulo.

Gemia de dor.
Estava muito doente.
Iria morrer brevemente.

Mas o seu gemido era uma poesia…

quarta-feira, outubro 27, 2010

A ALMA DOS REMEDIADOS CRÒNICA UM

MONÓLOGO DE FERNANDA (VENDO NOVELA DA TVI)




Estas gajas são umas velhas e pensam que são novas!
Grandes coirões!

Haviam de ver como eu era jeitosa ainda há coisa de oito anos! Com cinquenta “aninhos”, estava boa como o milho. Até foi quando no escritório onde fazia a limpeza, o engenheiro me apalpou o cu. E eu, (ta bom, ta, não ando cá a perder ocasiões, e logo com um figurão daqueles!), encostei-me bem a ele.
Ainda me apalpou mais três vezes, mas ficou por aí.
Paciência…

Mas é que estas tipas não têm mesmo vergonha nenhuma para andar ali sempre aos beijos aos colegas…

Vá lá os miúdos dos «Morangos Com Açúcar»! Agora aquelas “peruas”!

Será que aquela gaja é casada? É coisinha para já ter uns dois divórcios no bucho. Não deve haver marido que esteja para aturar aquilo.

Só pensam nelas, estas artistas! E ganham bom dinheirinho para andar ali aos beijos ao “marido” e depois ao “ amante”!
Um rico dinheirinho, sim senhor, e tu, Fernanda, para aqui desempregada!

Se tivessem um homem como o meu, chegavam a casa, levavam um enxerto de porrada, para não serem desavergonhadas, e ficavam sem o dinheiro, porque ele ia bebê-lo todinho.

Que grande casa, que linda sala.!. Até parece a da Dr.ª Olga, cheiinha de bugigangas de louça.
Não é que essa puta só me paga cinco euros por hora, e só quer as terças de manhã, para eu “ me haver” com aquela tralha toda!

Foi a fábrica que fechou, depois as limpezas nos escritórios acabaram-se, um foi á falência, outro mudou de mão…, isto está uma desgraça!
Fiquei só com a casa da Dr.ª Olga.
Aquela grande cabra!
No Centro de Saúde, marca toda a gente para as oito da manhã, e depois a “madama” chega ás onze. Claro que a consulta não demora mais que cinco minutos. Nem olha para a cara das pessoas, escreve umas coisas, com a cabeça para baixo e pronto.
Outro dia, a ti Amélia, coitadinha, cheiinha de dores nas pernas, sem poder andar, disse que a mulher teve todo o tempo da consulta ao telefone. A velhota percebeu que era para o Brasil, a marcar hotel para férias.
Pois, telefone de graça…e um bom ordenado que dá para passear…
Os meus pais eram pobres, só fiz a terceira classe. Se eles tivessem sido gente de posses, agora podia estar no lugar daquela “coruja”.
Aquela fulana não tem consciência nenhuma. Um centro de saúde na Alfama, já se sabe que é só de velhotes cheios de maleitas e necessitados.
Se ela visse a miséria que é aquela sala de espera…
Mas a gaja está-se a cagar…

Tem tanta chinesada. Quando começo a lida da casa, a minha vontade é enfiar com as caixinhas de porcelana todas no lixo. A mulher é doida, tem para aí umas cem.

Uma pirosa, uma estúpida, uma sovina!

Ai meu Deus, olha esta matrona loira aos beijos aquele de cabelos brancos, o sujeito até parece que tem espuma de barbear na cabeça!
Onde já se viu!

Nas brasileiras também há disto, mas não é assim. Fazem com graça, são novos, giros. E também ia jurar que não dão tantos beijos como nas telenovelas portuguesas…
Sempre há outro recato!

Bem, e esta quarentona tão ruiva, tão ruiva, (a mulher mais parece um semáforo) que não sai da frente da gente sempre em cuecas e soutien de cetim!
É só disto nas novelas portuguesas, matadoras em cuecas é o que há mais.

Prontos, agora lá vai mais um linguado no puto surfista…
É que esta gente nem olha a idades, ele é velhas com “chavalos”, catraias com “velhadas”… Que grande pouca-vergonha!

Por isso é que este país está como está!

Ai Fernanda, ao tempo que não dás um beijo destes!
Desde o tempo da outra senhora! Se bem me lembro, ainda o Salazar não tinha caído da cadeira.
Não penses Fernanda, que a tua vida não é isto, e daqui a pouco chega o Horácio.
Deve vir bêbado como um cacho, e vai mandar vir se o comer não estiver na mesa.

E o cabrão, quando está mesmo cheiinho de vinho, larga aos pontapés a tudo.

Todos os dias morre gente, só a este gajo não lhe dá uma que o leve para o inferno!

Vá lá, que me vi livre do traste da mãe dele, aquela velha cinzenta, a cheirar aos fumados de cozinha de aldeia.
Veio lá dos confins de Trás- os –Montes só para me moer o juízo!

Custou, mas foi!

Aquela estuporada que me lixou a vida durante trinta anos!
«Ó rapariga, não sejas badalhoca…Ó rapariga, não vês que não sabes fritar alheiras, o meu Horácio não gosta assim…».

Grande cabra, quando o gajo me arreava, ela ia para o quarto, á laia de não dar por nada. O que vale é que também apanhou bem do homem dela.
As que se perderam forma poucas…

Não é que esta gaja se está a atirar ao loirinho que é da idade do meu neto?! Palavra de honra, eu fico parva com o descaramento destas sujeitas!

Bem, vou apagar esta merda, que se faz tarde para ir descascar as batatas para a sopa.

Cá o “banhas” não come sopa de véspera, tem que ser tudo acabadinho de fazer!
E hoje ainda vai dar dois murros na mesa, tão certo como eu me chamar Fernanda. Porquê, não sei, ou porque o chouriço está mal assado, ou ficou esturricado...ou sei lá….
Ele tem cá um jeito para arranjar motivos, o cabrão!

E há uns tempos para cá que anda pior, parece que tem o diabo no corpo.

Dizem que os homens aqui do bairro, andam todos doidos por umas brasileiras que apareceram no café.
Se não fosse os duzentos euros que eu lhe consigo arrancar todos os meses, bem, se não fosse isso, muito gostava que ele fosse para o inferno uma vez por todas, com uma puta de uma brasileira qualquer!
Ai, quem me dera! Era o fim de quarenta anos de “castigos”.

Até já me lembrei de ir a Fátima pedir para me ver livre deste sacana.

Se me apanho a dormir sossegada, sem o gajo a roncar em cima de mim! (parece a antiga sirene da fábrica, a chamar a gente á hora do almoço). E quando lhe dá para se roçar na mina perna?! Ai, cruzes, antes morrer que apanhar com ele em cima!

O que me vale, é que está sempre tão “entornado”, que não chega a lado nenhum.

Mas porque é que lhe não dá um “ataquezinho” do coração e Deus o leve de repente, ainda era o melhor para mim!

É isso mesmo, vou a Fátima com a camioneta da freguesia.
Mas tenho que pedir tudo direitinho!
Não vá Nossa Senhora mandar-lhe um AVC e ainda me fica aqui o homem entrevadinho, com a boca ao lado.
Porra!
Era só o que me faltava!

Então, mas para isso, o melhor será ir a pé, sempre tem mais devoção, mais fé, e assim a Virgem atende melhor!

Vou falar com a Guilhermina que também é do Norte e percebe destas coisas.
Ela vai sempre a pé, a mulher lá sabe porquê…!
Ah, agora é que estou a ligar…, pois é: o homem dela morreu com um ataque fulminante, um enfarte ou lá o que é.
E esse era cá uma bisca….Até um filho fez por fora… Em casa era cada carga de porrada!

Ela é que me vai orientar nesta coisa.

O Horácio precisa de uma morta “limpinha”!

Ai, ai, Fernanda, se tu não fazes pela vida, ninguém o faz por ti!

segunda-feira, junho 07, 2010

As Minhas Janelas

Houve um tempo em que a minha janela dava para um jardim, e ao longe viam-se campos de milho, e mais ao longe uma “bouça” com árvores com árvores imensas e diversas. O jardim era escalado em socalcos, uns com relvados, outros com canteiros de flores delineados com buchos , outros de árvores de fruta com laranjeiras pejadas de laranjas azedas, que originavam a tanto apreciada “marmelade”. E no meio, uma capela.

Havia dias, que grupos de pescadores com suas famílias, chegavam de longe, da Póvoa do Varzim, de Viana do Castelo e de outras praias onde, onde á costa deram, diziam, por milagre, depois de uma noite louca no mar revolto. Traziam muitas garrafas de azeite, para que se acendessem lamparinas todo ano em agradecimento a Nossa Senhora de Monserrate.

Nós, os “meninos” da casa, gostávamos muito destas incursões. E ouvi-los contar á nossa criada, que os conduzia até á capela, aventuras dramáticas. Havia sempre alguém que tinha sobrevivido a um naufrágio. Depois essa gente lá se ia embora, prometendo voltar para o ano seguinte, e distribuindo rebuçados de mentol de um tostão.

No Verão, ás tardes, vinham outros meninos brincar connosco. Eram mandados para o para o nosso oásis. E ás cinco horas, a “nossa” Geca, (a criada que tomava conta de nós), chamava para o lanche, que era papa maizena colorida com gema de ovo. Mas do que gostávamos mesmo, era de comer a broa de milho ainda quente, saída do forno dos caseiros, cuja tampa era fixada com bosta de boi. Havia um cheiro a terra molhada nesses fins de tardes de Verão, enquanto os bois davam á “nora,” e os campos ficavam bordados a regos de água.

Nesse tempo não desconfiava de nada.



Houve um tempo em que a minha janela era muito alta. E não era a “minha” janela. Eram as janelas de um internato de Doroteias

E era proibido aproximar-se das janelas.

E lá dentro era o silêncio. Por vezes cortado por a passagem de uma freira pelo longo corredor, fazendo tilintar o rosário com o crucifixo dependurados ao pescoço.

E depois outra vez o silêncio.

E a missa da manhã, e as aulas, e o refeitório. Tudo em silêncio.

Às duas da tarde, soava o grito de vida das meninas, na meia hora de recreio.

Depois voltava o silêncio, as horas de estudo, o terço e bênção, as orações da noite.

Até ao sepulcral silêncio do dormitório.

Havia meninas que iam a casa de quinze em quinze dias. Mas as que os pais eram de longe, da província, era muito raro irem. E isso magoava-me a alma. Essas, tinham “enchidos” escondidos nas malas, pois era proibido ter comida vinda de casa. Fazíamos incursões á sala de arrumação das malas, para elas matarem saudades da “terra”.

Depois havia castigos para elas e para as cúmplices. Que eram a ausência do recreio.

O total silêncio todo o dia.

Havia ainda, as que os pais estavam em África, a trabalhar muito. Para que elas pudessem andar num colégio tão bom. Para que tivessem uma educação esmerada. Para que pudessem conviver com meninas “finas”.

Essas nunca iam a casa.

No dia em que começávamos as férias de Verão, virávamos os colchões para arejarem, antes de virmos embora. Já de malas feitas, e os pais na portaria á espera.

E elas ficavam. Até nesse dia, elas ficavam.

Tinham sete, oito ou nove anos.

A infância tinha acabado a meio da infância.

No entanto eu ainda era criança, e ainda

Não desconfiava de nada.



Houve um tempo em que a minha janela dava para o jardim da Gulbenkian.

Tinha vinte e cinco anos e uma filha pequena.

Devido á barulheira dos carros que passavam na Avenida de Berna, as janelas estavam sempre fechadas. Mas atravessávamos a rua com o triciclo, e íamos brincar para o jardim.

Éramos felizes as duas, naquela «casinha pequeninha», como ela dizia.

Um dia recebi um telegrama, do Comando das Forcas Armadas na Guiné.

Dizia: Cumpre-nos o doloroso dever, de informar Vossa Excelência, da morte do capitão miliciano, M…………………………….., comandante da companhia nº ……., sitiada em Enchei-a, pertencente ao comando de batalhão de Bissorã……,

Aí percebi que os trilhos da vida por vezes descarrilam, e então,
Comecei a desconfiar



Agora, neste tempo, a minha janela dá para a Sé de Lisboa e Largo de Santo António.

Daqui vejo, os turistas a correr aos gritos atrás do ladrões, depois de ficarem sem as mochilas.

Os casamentos de Stº. António, e suas noivas com rendas e tules, e diademas de fantasia.

A procissão de Nossa Senhora da Saúde, com as prostitutas do Martim Moniz a cantar, ladeando o andor.

O S. Jorge a cavalo a entrar na Sé, no dia do Corpo de Deus. A missa campal com o Cardeal todo enchapelado. Depois sai, no seu cavalo branco, acompanhado por um homem vestido com malha de fero. Vão em procissão em direcção da baixa.

Tenho outra janela virada a Sul, que se abre sobre a praça do Campo das Cebolas e suas palmeiras.

Depois delas, o Rio.

A doca do Jardim do Tabaco e a magnificência dos seus iates de visitantes reais.

Mais ao fundo, os enormes cargueiros.

Aos fins-de-semana, o rio transforma-se num mar de velas brancas em regata.

Não espero coisa alguma. Vivo um dia de cada vez.

Já não desconfio de nada.

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domingo, junho 06, 2010

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A ALMA DOS REMEDIADOS CRÓNICA QUATRO

"O Octogenário Abandonado"

O Sr. Alfredo Costa, de 88 anos, deu entrada no Hospital de Santa Maria no princípio de Novembro. Diagnóstico: pneumonia.

Ficou na enfermaria 3, na cama 6. Os outros doentes, todos recuperavam de cirurgias. Excepto um homem novo, de trinta e quatro anos, com um cancro, em estado terminal, que só ali permanecia para ter os cuidados paliativos.

Nos primeiros dias Sr. Alfredo, esteve muito mal, com febre altíssima. Não falava, delirava apenas. Ninguém sabia que espécie de doente era aquele, talvez um idoso que ia dali sair sem vida, que foi com certeza o que a sua família pensou quando o deixou lá.

Mas foi melhorando, e logo se começou a ouvir o seu: «Muito obrigadinho», ou «se me faz o obséquio», por qualquer serviço das empregadas ou enfermeiras.

Logo que começou a sentar-se na cama para comer, mesmo sem apetite nenhum, elogiava as refeições, que era tudo «muito gostoso» e «muito asseado».

À hora da visita, avançavam pelos corredores multidões de familiares, com os seus pacotinhos da pastelaria e sacos de plástico de roupa lavada, procurando esta ou aquela enfermaria, perguntando uns aos outros para que corredor haviam de virar. Uns entravam na enfermaria 3, esfusiantes de contentamento ao encontrar finalmente o “seu doente”.

Para o Sr. Alfredo nunca entrou ninguém.

Passaram-se muitos dias, e os familiares dos doentes perceberam que também vinham visitar o doente da cama 6, e ele adquiriu o direito de receber o seu embrulhinho de bolos de arroz e umas peças de fruta. «Não era preciso vossemecês incomodarem-se», ou, «agradeço muito a gentileza», dizia satisfeito.

Há hora da visita, todas as famílias eram a família do Senhor Alfredo.

O doente canceroso, embora com calma e resignado ás suas dores constantes, estava sempre muito irrequieto para lhe subirem ou descerem a cama, procurava constantemente uma posição menos incomoda.

E cortava-lhe a alma, ao Alfredo, quando uma empregada menos paciente respondia aos apelos do jovem homem,

«olha que temos mais que fazer do que estar aqui todo o tempo a dar-te à manivela da cama, sossega homem, vê lá se dormes».

«Como se sossegar e dormir fosse solução para as dores deste desgraçado, grande cabra, ao menos que lhe fale com carinho, mas não, não sabe, devia estar só esfregar o chão e estar sempre caladinha, esta coirona», resmungava entre dentes o Alfredo.

E virando-se para o rapaz: «Você chame sempre por mim para lhe “ajeitar” a cama, mesmo a meio da noite, faça de conta que tem aqui um pai a zelar por si».

E embora se preocupasse com qualquer infortúnio dos outros doentes, não era um homem triste. Pelo contrário, até emprestava uma certa alegria aquele lugar, acordando sempre muito animado, com uma piada nova na ponta da língua para quantos o rodeavam.

De manhã quando vinham fazer as camas, lá começavam as empregadas,

«Então, Sr. Alfredo, a sua namorada? quando o vem ver? ou já arranjou outro? E ele:

«Namoradas, namoradas…, não as provo desde moço! Desde que a minha falecida se foi, já vai para 12 anos, quem cuida de mim é a” minha Fátima”, coitadita, que já tem tanto que bulir! É a casa da patroa onde trabalha como uma moura, das oito da manhã até as seis da tarde, depois ainda tem dois escritórios para limpezas, a lida da casa dela….Ela há-de vir visitar-me, há-de, mas ainda não teve tempo, e agora tem a netinha…, o meu neto Nelson arranjou lá um caso com uma moça e teve uma filhinha, que trouxe para casa para a mãe cuidar».

Deram-lhe alta no dia 20 de Dezembro.

«Ena, que sorte, vai receber os presentes do Pai Natal a casa, o nosso velhote». Ajudaram-no a vestir o fato que tinham deixado nos seus pertences quando entrou no hospital. Talvez a família esperasse a sua morte, era um fato que só usou uma vez, há muitos anos, no casamento de uma neta. Era o fato adequado para se levar no caixão.

Sentado numa cadeira já junto á porta, prontinho para sair, ia dizendo: «Muito obrigadinho pelas vossas gentilezas, desejo que também vão depressa para junto dos vossos».

Estava com ar muito satisfeito, prazenteiro, parecia um noivo à espera da sua noiva. Mas a “coitadita”, (como já toda a gente chamava à sua filha), não apareceu todo o dia. Lá o ajudaram a vestir novamente bata e voltou para a cama.

No dia seguinte, como ninguém o tivesse ido buscar, teve que ficar na cama , embora sem justificação clínica. Para permanecer no hospital, tinha que ocupar a sua cama, e continuar a ser o doente nº6.

Despedia-se com ternura dos companheiros que saíam, como se fossem velhos “companhon de route”. Dava as boas vidas aos novos ocupantes das camas, interessava-se por eles e esforçava-se para que eles se sentissem o melhor possível naquela enfermaria, como se fosse um anfitrião.

_«Então, Sr. Alfredo, você não quer largar as saias da gente? Do que você gosta é de ter estas meninas todas à sua volta!», brincavam as auxiliares.

«Não tenho assim tanta pressa» (disfarçava o velho),

«Eu quero ir bem curado para não dar mais trabalho à minha Fátima, coitadita. Quando entrar em casa, quero ajudá-la com a menina, posso bem tomar conta da minha bisneta.»

Mas houve uma manhã, pouco antes do Natal, que o Sr. Alfredo quando acordou não viu ninguém na cama ao lado. A cama nº 5 estava vazia e feita de lavado, como se nunca ninguém a tivesse ocupado.

Perguntou pelo “rapazito” á enfermeira de serviço, que rispidamente lhe respondeu:«Foi transferido!».

Como quem quer dizer, «mete-te na tua vida, entende o que é para entender, e nada de conversas».

Ele dizia baixinho para si:

« Partiu o meu rapaz, partiu a meio da noite!». E foi até à casa de banho para chorar à vontade.

«Porque não eu em vez dele, que já cá não ando a fazer nada?».

Mas logo se tentou convencer que estava à espera de ir para casa. E mais uma manhã, o grupo das raparigas, com a carga do costume para o Alfredo: «Então, a “coitadita” ainda não veio buscá-lo?».

«Oh senhoras, não vedes que só em transportes ela demora umas duas horas par cá vir! Precisa de arranjar uma folga, como é há-de ter tempo, coitadita! Se a gente morasse na Sé como antigamente, não era isto. Mas quiseram vender a casa e ir para rio de Mouro! É muito longe…, e depois eu nem sei ir lá dar. Mudamos para lá há um ano. Depois de ter morado oitenta anos na freguesia da Sé! Vim da terra com os meus pais aos três anos para a Rua São Joao da Praça. Para um quinto andar, era só chegar á janela e o Tejo era todo meu. E ali fiquei oitenta e cinco anos! Ali casei com a minha falecida, (que Deus tem). Ali tive os meus filhos. Uma vida...»

Nunca se queixou da “sua” Fátima. A culpa era sempre do marido que era um egoísta. Dos filhos que eram uns “calões”. Do lugar de Rio e Mouro, que era no fim do mundo. Dos comboios que andam sempre cheios. Dos autocarros que nunca passavam a horas, etc,etc.

Lá passou o Natal, depois e Ano Novo, e depois o dia dos seus anos, sempre na esperança que a seguir ás Festas (que davam muito trabalho “sua Fátima”, coitadita), o viessem buscar.

Mas não, nunca foram.

O hospital nunca conseguiu comunicar com a família, todas as referências que deixaram eram falsas, telefone e morada.

. O caso especial do Sr. Alfredo deu entrada nos Serviços Jurídicos.

Os médicos, que já lhe tinham estima, tentaram accionar a Rede Especial de Trabalhos Continuados, com a intenção de ele continuar no hospital. Mas nada feito, ele estava curado, não havia razão nenhuma para ficar ali mais seis meses. Estava apto a ir para casa.

Acabou por ser “despejado” da enfermaria nº3, que já era a sua casa. Por intermédio da Segurança Social, foi depositado num lar.

Tudo isto sem nunca a família o ter visitado ou requisitado.

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terça-feira, maio 11, 2010

A ALMA DOS REMEDIADOS CRÓNICA CINCO

Ruben dos telemóveis

Sentado nas escadinhas da Sé como de costume, lá está o popular “Ruben dos telemóveis”, como toda a Rua das Canastras o intitula, (sem eu nunca ter percebido porquê).

Normalmente cantarola uns fados, e diz quem já o ouviu á noite em Alfama, que é um bom cantador. Espreguiçando-se, levanta-se dizendo: «vou andando que a minha vida não é isto!
Prontos, só vou até ao Rossio, e á noite não saio, estou farto de trabalhar á noite, já não tenho idade.
Hoje fico a ver a bola.
Logo há jogo no Sporting com os ingleses, lá tenho eu que ir ver o “bifes” entornados de cerveja!
Já deve estar tudo cheio deles pela Baixa fora, então a esplanada da “Suíça”!».
E eu fiquei a pensar em que trabalharia o Ruben, percebia-se que era um trabalho independente sem horários fixos.
Mas o que é que venderia ele no Rossio?

Á tardinha, encontro a mãe do Ruben, a D. Lurdes, à porta da padaria, onde pára para dar dois dedos de conversa. Chega um homem que se mete num carro ali estacionado.
Exclama ela: «Este malandro é carteirista no eléctrico 28. Estaciona o carro aqui todas as manhãs para ir trabalhar.
Patife, fica com o dinheiro e os pertences das pessoas! São uns canalhas, estes carteiristas!
A senhora já viu o que é uma pessoa ficar sem documentos nem nada?! Então os estrangeiros…veja bem! Já viu o desarranjo que é?».
E eu:

 «Lá isso é, D. Lurdes».

Ela continua a palestra: «Cá o meu Ruben…,
Deus me livre de ficar com o dinheiro dos outros e então os documentos!,
É muito sério, lá isso é.., prontos, arranjou o seu negócio… o que havia de fazer!
Ele chegou a trabalhar para um despachante lá para o Cais Sodré, mas tudo isso acabou….
Mas é uma jóia de moço, (não desfazendo).
Olhe, de todos os que andavam na escola com ele, foi o que deu melhor, nenhum saiu tão bem.
O Vítor, tá bem, que é empregado bancário, mas é um parvalhão que nem fala á gente quando vem cá á rua. Não liga nenhum á mãe dele, que bem precisava, coitadita!
Agora o meu filho!, ainda outro dia me deu um plasma para eu ver as novelas como deve ser!.
O Quim, outro que andava com ele na escola, a vida dele foi só droga e prisão.
 Agora está cá fora, mas é só pele e osso, uma desgraça!
O Zé do Arco Escuro, esse foi só vinho e um maluco por mulheres, já vai na quinta, agora tem uma brasileira mais nova vinte anos…
Há-de ir longe, da raça que elas são! Pois olhe, o meu Ruben só namorou uma vez, foi com a Fátima, a filha do Hermano.
Agora é só putas! (com a sua licença).
Não quer enredos com ninguém, para quê? Pra engravidarem e eu é que tenho que pagar os abortos, como foi com a Fátima!?
Ainda por cima foi com aquele fulano do Barreiro, que diz o Hermano que é rico e lhe pôs uma casa que é um mimo! Pois que seja, mas quem lhe pagou o aborto fui eu».

«Lá isso é D. Lurdes».

«Não senhora, o meu Ruben não tem vícios.
Tem lá o sue negócio…, lá isso tem, mas a vida não está bem pra ninguém!.
Olhe, eu também sei como é, ganhei muito dinheiro quando era peixeira, bons tempos, cheguei a comprar uma casinha na Charneca e tudo.
Mas tudo mudou, e eu sozinha, bem vê…tive que vender a casinha e o ouro que tinha!».

«Lá isso é, D. Lurdes».

Ela continua: «Olhe, o meu filho toda a gente o estima, por alguma coisa é.
Vou-lhe contar uma coisa». E empurrou-me para a porta de sua casa que é pegada á padaria, onde tropecei no gato e fiquei colada á gaiola do periquito.

«Ouça só isto, para ver como ele é educado:
Ontem á noite tocou um telefone e vai o meu Ruben e atende:

Sim, minha Senhora, é do 91xxxxxxx9.
Ah, sim, é a dona deste telemóvel?...
Sim, sim, fui eu que o roubei.. é que eu roubo telemóveis, …pois, como queira,… prontos, sou ladrão de telemóveis!.
Mas ainda bem que falou, pois na pochete que eu trouxe vieram cartões do banco e documentos…
Pois claro, fazem muita diferença…com certeza…
Dê-me a sua morada, que eu mando-lhe tudo isso por correio azul…
Bem, claro que sou ladrão..,Senhora D. Mafalda…, como sei o seu nome?...estou a olhar para o seu BI.
Se quiser falar com a polícia, fale, mas eu não quero nada que é seu.
A polícia não me pode encontrar, não vou atender mais este telefone.
E como está a bateria a acabar-se, agradecia que aproveitasse a ocasião para me dar a sua morada….
Bem, o telemóvel…isso não lho posso dar, é o meu trabalho, compreenda!...
Claro, faz favor de dizer, Mafalda Almeida e Cunha, rua Tristão Vaz, nº xx, Restelo, claro, claro…

Vai daí, foi ele mesmo hoje ao correio, com este calor, veja bem, coitadito, e manda tudo á senhora.
Olhe, minha senhora, filho como o meu não há,
Deus lhe tivesse dado assim um, não desfazendo, é claro.)

«Lá isso é D. Lurdes.»

Companheira Solidão

São 18h de uma sexta-feira do mês de Novembro, na baixa pombalina.
Na rua o frio começa a cortar.
Há muito movimento, toda a gente foge.
Fogem em direcção a casa, ao quentinho, ao aconchego. (Até já me começa a cheirar à quadra natalícia.)

 
Correm para os transportes públicos como se estes fossem todos acabar hoje. Desejando-se bom fim-de-semana, atropelam-se nas esquinas.

 
Encavalitam-se nos eléctricos.

 
Arfando de contentamento, entalam-se nas portas do metropolitano.

 
Indiferentes á beleza do cais das Colunas, atravessam correndo o Terreiro do Paço, amontoando-se nos barcos, que, carregados, ondulam o rio.

 
Nada os detém, são 18h de uma sexta- feira!

 
As ruas da baixa começam a ficar desertas, a de S. Julião, a da Conceição, a de S. Nicolau e por aí fora.

Há quase uma hora que as cadeiras nos cafés repousam e pernas para o ar em cima das mesas, e rios de água empurrados a esfregona, desembocam nos passeios.

Na porta dos estabelecimentos, vão aumentando as tabuletas dizendo “Encerrado”.

São dezoito horas de uma sexta-feira, e na baixa pombalina já só restam os pombos!

 
Eu atravesso devagar aquele bairro, no sentido contrário do resto do mundo..., eu moro para os lados da Sé, no fim dos fins da baixa!

Eu vou para casa, “eles” vão para o lar...

Eu vou fechar-me no meu espaço vazio, “eles” vão para junto das suas famílias!

Entro em casa e vem logo o vício de ir buscar o pivot da televisão para companhia, uma voz que corte o silêncio.
E a ilusão de que com o gesto mágico e carregar no botão do aparelho, o mundo me enche a sala.

 
O homem no ecrã fala de engarrafamentos de trânsito, o tabuleiro da ponte para cá, a segunda circular para lá..., (e fico sempre curiosa de qual será a primeira circular.
Tem que haver uma primeira para se engarrafarem todos na segunda!).

 
Enfim, só se fala da pressa “deles” a fugirem para o seu cantinho, “dos” que fogem da baixa, “dos” que fogem de mim... E eu fujo da sala!

 
Vou para o quarto, sento-me ao computador, procuro os emails ( a angustia pergunta: quem comunicou?). Há imensos impessoais, daqueles que se encaminham mecanicamente para todos os contactos. Extraídos de frases dos livros de Paulo Coelho e outros sucedâneos, todos de temática “auto ajuda”. Há uma excepção, a de um convite para fazer um “workshop” de “souflés”, no hotel não sei quê..., não reparei bem, mas tinha no me de sabonete, três dias, preço 300 euros, por acaso reparei!

 
Não, não quero ler nada!

 
Abro uma página em branco, começo por escrever SOLIDÃO....

 
E deixei de me sentir só.

 

terça-feira, maio 04, 2010

A MINHA VIDA DEPOIS DE TI...


Sim, a minha vida depois de ti, do que foi antes de ti não me lembro. Depois chegaste tu! Foi uma vida...Temporariamente curta. Mas foi uma vida!

Depois aquela dor terrível que me doía no sítio mais sensível da minha alma...Vivi com ela muito, muito tempo... A dor atenuou...



Depois de te perder, muito depois, perdi essa dor. Depois da tempestade, fiquei sozinha, sem ti e sem a dor. Chegou a calmia. Habituei-me a viver só comigo. Tenho os meus anti-depressivos, os meus cigarros, a minha sala e o meu rio. E os meus livros de poesia, que por vezes me atraiçoam! Por acidente no meio dum poema encontro-te a ti. Mas depressa és posto no teu lugar. Arquivo-te logo no ficheiro da minha vida. Coloco-te no álbum da minha alma.



Estou-me habituando a mim. E quase que gosto da vida que tenho. Durante algum tempo tentei distrair-me. Passei horas até à exaustão sorvendo sequiosamente, numa secura aflita, o que de mais sórdido, mais cinzento, de mais agressivo me ofereciam os recantos da noite de Lisboa. Passei noites acordada e dias a dormir. Não comia. Só qualquer coisa quando me levantava, simplesmente porque não aguentava fumar em jejum. Abusei do meu corpo sem qualquer respeito. Não fui feliz nem fiquei satisfeita.

Os homens de quem gostei não queriam de mim o que eu queria deles, ou queriam de mim o que eu não queria deles. Foi assim que fiquei sozinha. Mas tentei, a sério que tentei qualquer coisa. Não sei bem o quê, mas sei que foi da maneira errada.

Agora, mesmo que quisesse recomeçar não tinha coragem, nem paciência, não, não tinha mesmo vontade.



Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena, mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim...

Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe. Nada disto é desistir da vida, é só não dar importância a coisas que não a têm. E afinal será a vida o centro de tudo?



Gosto da vista da minha janela às sete da manhã, com os primeiros cacilheiros a atravessar o rio e o azul do céu cor de tinta da china, e do rio a brilhar como prata polida. Gosto de ir ao cinema ao Domingo á tarde. Sinto-ma tão bem sozinha no escuro da sala, a ver um filme que por vezes me enche um bocadinho a alma! Gosto de ler e reler Fernando Pessoa. Passear-me pelo Terreiro do Paço vazio ao fim de semana, sentar-me a olhar o rio no Cais das Colunas. Gosto de beber a bica no Martinho da Arcada, e pensar que ele, o Poeta, também por ali andou. De que gosto mais? Das tempestades de Inverno, e acordar com a chuva a dar nas janelas, e observar as palmeiras do Campo das Cebolas vergando-se chicoteadas pelo vento, sozinhas na noite, abandonadas á sua sorte sem o turbilhão de gentes, carros e autocarros que as rodeiam durante o dia.



Não espero encontrar ninguém, prezo demasiado a minha melancolia. Não tenho saudades de ninguém, só de alguns sítios da minha infância. Vivo, é já bastante. Não vou dar a lado nenhum, mas isso já tu sabias. Sim, meu amor, é esta a vida que levo. Raramente penso em ti como agora.



À tua memória, a ti, que há muito tempo não fazes parte desta vida, e já há algum tempo da minha, bebo este último gole de tinto. Vou-me deitar.

segunda-feira, abril 26, 2010

Noites de Verão

Tinha chovido torrencialmente todo o dia, agora era a calmia de uma noite de Verão africana.
Sentada á porta de um pequeno barracão que funcionava como messe de oficiais, eu entretinha-me a olhar o céu, beber cerveja e comer amendoins, servida pelo soldado que era o criado de mesa. Tinha passado a tarde a ler no quarto, e o espectáculo daquela noite era redentor. Ao olhar aquele céu, esquecia-me que vivia dentro de arame farpado. Que havia guerra a poucos quilómetros. Que há oito noites atrás tinham caído “morteiros oitenta e um” dentro da companhia. Que tinha morrido um soldado que descansadamente ouvia radio na sua hora de descanso, deitado na camarata.
Que a cinco minutos de jeep dali, havia uma aldeia que visitávamos em passeio ao fim do dia, onde as crianças á porta das tabancas mostravam as suas barrigas inchadas de fome, só alimentadas por uma tigela de arroz por dia.
O Matos, o soldado, entretinha-se a servir-me, pois não havia mais nada para fazer.

Encontrava-me numa companhia do exército português, um aquartelamento junto ao rio Encheia, na ex província portuguesa da Guiné.


O soldado que me servia, era completamente fã do comandante da companhia que, aliás, era o meu marido. Um miliciano “apanhado” para capitão, como acontecia a muitos naqueles tempos da guerra colonial.


Na noite anterior o comandante tinha saído para o mato com um grupo de homens. Senti-os partirem por volta das duas horas da manhã. Não tinham objectivo certo, era apenas uma operação de «reconhecimento de zona». Tinham ido a dez quilómetros para leste, onde só existia mato, apenas mato. Nenhuma aldeia próxima. Esperavam encontrar “vestígios” de turras. Mas nada! Apenas encontraram um jovem de doze ou treze anos de idade, sozinho naquelas redondezas.
Ouvi-os chegar ao entardecer. Um grande alvoroço! Vozes e risos.


O Matos pôs-me ao par do que tinha acontecido. O jovem foi apanhado para informar se havia algum acampamento do P.A.I.G.C. na zona.


Estou sentada á porta da messe, em frente ao gabinete do capitão que fica do outro lado da parada. O rapaz é trazido por um soldado que o agarra pelos cabelos. O Matos ri-se e diz-me: «o gaixo vai xer interrogado». O coração aperta-se-me. Queria poder correr pelo aquartelamento fora, passar os sentinelas e fugir não sei para onde. Para o meio do mato, era a única hipótese…


O tempo vai passando e aquele “gaixo”, como diz o Matos, continua dentro do gabinete do comandante. O “gaixo”, não é senão uma criança de doze anos, que teve o azar de estar numa zona ainda controlada pelo o exército português. Entretanto o Matos vai-se divertindo pensando no “gaixo lá dentro. «Ai não que não dixes», diz ele com a sua pronúncia transmontana, «agora vais dixer onde estão aqueles filhos da mãe e nosso capitão amanhã já lhes trata da saúde». Mas para ele, o mais emocionante foi quando do gabinete do capitão, saiu um soldado que voltou com um cinturão na mão. «Agora vai apanhar até dizer mesmo todinho». E ria-se muito com esta cena do cinturão.


Aquele rapazinho deve ter confessado tudo o que sabia e o que não sabia sobre o hipotético acampamento do “inimigo”. O comandante saiu do gabinete satisfeito. Objectivo conseguido! Havia dados concretos sobre um acampamento “turra” não muito longe dali.


O negrinho sabia bem o que esperava no dia seguinte. Ir com um grupo de portugueses indicar o lugar onde estavam os combatentes. Talvez fosse a sua condenação á morte. Já tinha acontecido a outros “informadores”.


Partiram no dia seguinte, outra vez ás duas da manhã, com o rapaz a indicar o caminho. Tinha-o visto a sair do gabinete, de tronco nu, com as costas marcadas pelas chicotadas do cinto do capitão.


Tinha o medo de quem traiu estampado nos olhos, naqueles olhos negros imensos, saídos d um corpo escanzelado. Medo que lhe fazia tremer as pernas, medo da morte que talvez o esperasse de volta a casa.


E eu estava ali a beber cerveja e a comer amendoins, a passar o tempo, e o soldado a rir-se muito. Havia tão pouca coisa divertida naquele sítio!


Junto a minha casa, numa praceta que fica ao lado da Casa dos Bicos, juntam-se nas noites de Verão centenas de africanos. Vêem frequentar cursos de formação nessa altura do ano. Estão hospedados na pensão da casa amarela e em muitas outras pensões que ainda existem na baixa. Outros vêem dos subúrbios onde vivem, para saber noticias frescas da sua terra. Ali se encontram numa confraternização calma. É um murmurinho de conversas em crioulo. Falam e riem entre eles sem olharem para quem passa. Formam um mundo á parte de tudo o que os rodeia.

 Mesmo assim, quando atravesso a praça para ir apanhar um táxi, tento não olhar para as suas faces. Tenho medo, muito medo, que no meio daquela gente haja alguém que me olhe de frente. E que tenha uns olhos negros imensos, que me acusem pelo que eu assisti naquela noite quente e tranquila de Encheia, em 1973. Enquanto passava um pouco da noite a beber cerveja e a ouvir as graçolas do soldado Matos!

 Medo de que me acusem do crime de ter sido apenas uma espectadora passiva de um espectáculo inqualificável.






MANUELA CARONA